A morada repensada

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Em entrevista à MADE, a arquiteta Sabrina Wernicke reflete sobre as mudanças causadas pela pandemia no espaço habitado

Radicada no Brasil, onde chegou ainda criança em 1986, a arquiteta argentina Sabrina Wernicke surpreendeu-se há alguns meses com as reações de amigos ao vê-la numa foto com o marido, o fotógrafo Gal Oppido, que ela havia postado em uma rede social. Empunhando uma furadeira, Oppido se juntava a Sabrina na adaptação do apartamento onde moram para a quarentena que havia acabado de começar. “Foi muito curioso receber as mensagens de amigos querendo saber como estávamos melhorando nossa casa. Tenho certeza de que a mesma foto não teria a mesma repercussão três meses atrás”, comenta Sabrina.

A partir daí, o papel do urbanismo, da arquitetura e do design, em tempos de pandemia, passou a intrigar Sabrina, que cursou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, e aponta Tadao Ando, os mestres da Bauhaus alemã e do Modernismo brasileiro como inspiração para seus projetos. Em entrevista à MADE, a arquiteta fala algumas de suas conclusões. Leia a seguir:

Na história da arquitetura, temos exemplos de como uma epidemia tenha transformado a relação das pessoas com o espaço construído, por conta de medidas, sanitárias, de isolamento etc?

A urgência sanitária, devido a pandemias, transformou muitas cidades pelo mundo. Podemos citar o exemplo do Modernismo, que, somado ao impulso da Revolução Industrial, das influenzas, da cólera e da tuberculose, acabou contribuindo para se repensar o desenho das cidades e dos espaços privados com o objetivo de criar espaços mais saudáveis. Os projetos urbanísticos tinham premissas de melhoria, a redução da densidade populacional, o aumento das áreas verdes, a construção de espaços abertos e parques para uma convivência ao ar livre, além de melhorias no saneamento e no fornecimento de água, assim como nos transportes dentro das cidades.

Em 1933, o arquiteto e urbanista Le Corbusier publicou a Carta de Atenas, expondo o que seriam as novas diretrizes para a urbanização mundial. O foco seria utilizar as novas tecnologias construtivas, que então permitiriam a verticalização para abrir grandes espaços verdes na cidade, distanciando grandes blocos edificados de forma a permitir ampla exposição à luz do sol e à ventilação — outra referência à miasma, dado que o texto indicava que tal ambiente poderia gerar “germes mortais” como os causadores da tuberculose. Seus projetos priorizavam espaços abertos, janelas amplas, ventilação e iluminação natural.

Nos últimos quatro meses, muitas pessoas tiveram que adaptar ambientes em suas casas, improvisando escritórios. Quando não há cômodos “de sobra”, o que se recomenda adaptar: algo como um canto no próprio quarto – ou é melhor evitar juntar sono e descanso com trabalho? Um pedaço de sua sala?

Acredito que é importante pensar que existem realidades diferentes e que cada pessoa ou grupo tem necessidades individuais/pessoais. Não existe o melhor, uma fórmula, mas, sim, o que funciona para cada pessoa na realidade de seu dia a dia, trabalho e lazer. Espaços dentro do quarto muitas vezes resolvem bem a questão da privacidade para focar com maior produtividade no trabalho e fazer reuniões. Também é possível criar pequenos espaços embutidos em estantes, armários ou mesmo trocar um criado-mudo por uma mesa.

Acredita que a arquitetura residencial – ao menos a alto de padrão – venha a reforçar a necessidade de se ter um home office bem definido em seus projetos? Como a inclusão de um ambiente assim afeta os demais cômodos, os fluxos entre eles e até o dia a dia de quem ali habitará? A varanda gourmet pode perder espaço para um escritório caseiro (“gourmet”, bem equipado para reuniões por videoconferência)? A propósito, do ponto de vista tecnológico (luz, comunicação etc.), em que se deve investir neste escritório?

Tenho visto muitas varandas sendo transformadas em escritórios ou um espaço para lives. A ergonomia, o conforto do espaço de trabalho está diretamente vinculado à produtividade. Cadeiras e mesas adequadas, equipamentos eletrônicos de qualidade como computadores, monitores e boa internet reduzem desgastes e criam conforto. Este tipo de equipamento exige uma temperatura do ambiente correta, senão eles podem ter danos. Uma iluminação interessante seria aquela que criasse diferentes cenários durante o dia em um mesmo espaço. Abajures e luzes auxiliares sempre são ferramentas interessantes.

Há de se repensar também estilos? Um projeto de interiores com dita inspiração industrial, que inclua um home office, não incorreria no erro de se ter um office home? Como garantir que um não se sobreponha ao outro, do ponto de vista arquitetônico e de projeto de interiores? Como ficam elementos como iluminação e ventilação equação específica do home office – o que se deve levar em conta?

Talvez o estilo espaço integrado, o loft, tenha perdido a força neste momento. A volta das paredes e de compartimentações é destaque e necessidade nas casas atuais. Novos comportamentos geram novas necessidades e, consequentemente, novos espaços e mobiliários.

Como tem sido sua própria experiência – repensou espaços em sua morada, para acolher seu trabalho em meio às restrições de circulação?

Desde o início tive uma intuição de que o isolamento seria longo. Então, logo nas primeiras semanas já repensei os espaços da casa para a nova realidade. Eu precisava um espaço isolado para trabalhar e fazer reuniões. Meu marido é professor e precisava manter suas aulas online, assim como suas atividades artísticas com um miniateliê. Nossa filha (Cora, de 5 anos) tinha que ter seu ‘’parque’’, seu espaço de brincar. Assim, criamos uma bancada retrátil no dormitório e mudamos a sala comum. Novos layout e mobiliários foram pensados para aumentar o espaço livre. Um sofá mais confortável para a TV foi projetado junto com uma nova marcenaria que armazenasse agora mais livros, material de pintura, impressora, filmes, tudo de maneira mais organizada, prática e de fácil acesso. A mesa de jantar transformou-se em mesa-ateliê.

A seguir, Sabrina Wernicke elenca seis soluções apropriadas aos novos tempos.

Escritório no dormitório 1

Escritório no dormitório 2

Escritório dentro do closet

Escritório no dormitório 3 (projeto em parceria com a arquiteta Gabriela Gurgel)

Nova marcenaria na casa de Sabrina, para fácil acesso e armazenamento

Home office separado (projeto em parceria com a arquiteta Gabriela Gurgel)

sabrinawernicke.com.br

 

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