A idade do lobo

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Por Alessandra Medina

Em entrevista à MADE, Cauã Reymond fala sobre o próximo trabalho, redes sociais, envelhecimento e, claro, sobre a paixão pela filha Sofia.

Cauã Reymond chega pedindo mil desculpas pelo atraso, à padaria, na Barra da Tijuca, lugar sugerido por ele para dar esta entrevista à MADE. Estava numa apresentação na escola da filha, Sofia, de 7 anos, da união com a também atriz Grazi Massafera. Pai coruja, tira o celular do bolso e começa a mostrar, orgulho, um quebra-cabeças montado pela menina e suas amiguinhas. “Desmarquei todos os compromissos só para ir lá assisti-la. Valeu a pena. Ela ficou tão feliz quando me viu! Um gesto simples, mas que mudou o dia dela”, diz ele que agora se prepara para interpretar gêmeos na próxima novela das nove da Globo, com estreia prevista para o primeiro semestre de 2020.

Cauã cavou seu espaço na TV e no cinema com muita determinação, além do talento. Estreou na TV em 2002, em Malhação, como o Mau Mau. Naquela época, chegou a ouvir de uma pessoa influente no meio artístico que, com o seu biotipo, jamais seria protagonista. Ele não se abalou. “Isso me deu mais gás para correr atrás de bons trabalhos. E que bom que não fiz sucesso do dia para a noite. Muitos colegas estouraram rápido, mas sumiram na mesma velocidade, infelizmente”, afirma ele.

Hoje, aos 39 anos de idade, dez novelas, quatro séries e 14 filmes no currículo, é um dos nomes mais requisitados da televisão e do cinema. Acabou de ganhar, no Festival de Brasília, o prêmio Candango de Melhor Ator Coadjuvante, por sua atuação em Piedade. No longa, que também conta com a participação de Fernanda Montenegro, ele interpreta o dono de um cinema pornô e aparece em cenas fortes de sexo com Matheus Nachtergaele.

Para viabilizar os projetos em que acredita, montou uma produtora. Além de interpretar o protagonista, ajudou na captação de recursos do filme Dom Pedro I, que estreia no ano que vem nos festivais internacionais.

Um dos poucos atores da sua geração que tem contrato fixo com a Globo, Cauã não faz o tipo acomodado. Para trabalhar com diretores que admira não mede esforços e já tomou a iniciativa, ao pedir para fazer um teste no filme Falsa Loura, de Carlos Reichenbach.

Casado com a modelo e apresentadora Mariana Goldfarb, de 29 anos, leva uma vida normal fora dos sets de gravação. Adepto do lifestyle saudável, acorda cedo, faz suas técnicas de respiração e leva a filha ao colégio. Nas brechas, pratica boxe, musculação, natação e, faixa preta de jiu-jitsu, voltou aos tatames recentemente. Esse estilo de vida acabou rendendo ao ator o título de Embaixador da Saúde e Bem Estar, num projeto que a ONU elaborou com 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A ideia é conscientizar e combater questões como fome, pobreza, desigualdade de gênero, entre outras causas. A verba virá da venda das Together Bands, pulseiras confeccionadas pela Bottetop, famosa marca de luxo sustentável britânica, a partir de materiais reciclados. Além de Cauã, o ex-jogador David Beckham e a modelo Alessandra Ambrosio também são porta-vozes.

Leia abaixo o bate-papo.

 

Como está a preparação para a próxima novela das nove?

As gravações só começam em fevereiro, mas estou me preparando há alguns meses. Gosto desta antecedência, pois preciso me sentir seguro quando o diretor gritar “gravando”. Além das leituras com a autora, diretor e elenco, estudei com uma coach, a Andrea Cavalcanti. Vou interpretar gêmeos. Tive essa experiência na minissérie Dois Irmãos, mas isso não quer dizer que o trabalho seja mais fácil. Não posso dar muitos detalhes sobre o personagem ainda. Mas posso dizer que o texto é bom, o diretor é sensível e o elenco, maravilhoso. Isto é fundamental. Não adianta ter um personagem bom se não houver uma equipe boa. Às vezes, é melhor ter um papel mais fraco e estar numa equipe boa. Sempre baseei minhas escolhas profissionais dessa maneira.

Você tem uma carreira consolidada, mas não é do tipo que fica em casa esperando o telefone tocar, esperando por convites, certo?

Eu corro atrás mesmo. Queria muito trabalhar com o Carlos Reichenbach. Paguei uma passagem do meu bolso e fui lá conhecê-lo. Ele gostou da minha ousadia e me convidou para um teste. É um traço da minha personalidade. Talvez da minha insegurança. A maioria das pessoas, que perseguem o que querem, está em contato com o que sentem. Ao mesmo tempo, elas estão em contato com os seus medos, com as suas inseguranças da vida.

E teatro, não pensa em fazer?

Penso, sim. Inclusive já recebi convites legais, mas já tinha acertado outros projetos. Minha agenda é cheia, graças a Deus. Tenho compromisso fechado para daqui um ano e meio!

Você sempre foi fã de análise. Ainda faz terapia?

Sim, lacaniana. Estou há nove anos com a mesma profissional. Meu pai é psicólogo. Vejo a psicoterapia como um lugar neutro para ter um diálogo aberto sobre certas situações.

E continua indicando para as namoradas?

A Mariana faz análise! (risos) A Grazi também. Eu realmente acho que, para quem lida com o público, interpreta um personagem e se envolve, há muitas questões subjetivas que devem  ser resolvidas. Então, conversar com um profissional ajuda. Eu não indico o terapeuta. Cada uma encontrou o profissional com quem mais se identificou.

Este ano você completa 40 anos. Está passando por alguma crise de idade?

Não tive crise dos 40, tive aos 30 e poucos. Minha analista diz que estou sempre 20 anos mais velho. (risos) Engraçado como isso é uma característica da cultura brasileira. Leio muito os jornais estrangeiros, para treinar o inglês, e não vejo essa curiosidade. Aqui, todo mundo quer saber por que estou tão em forma na minha idade. Mas sei que esta cobrança com as mulheres é muito pior.

Então para você envelhecer não é um problema?

Eu estou me sentindo muito bem hoje em dia. Não trocaria os meus quase 40 anos pelos meus 20 ou 30, por exemplo. Na verdade, acho que acontece uma revolução com os meninos também. Agora, todo mundo quer estar bem, bonito. As redes sociais deixaram todo mundo muito crítico. E é um fenômeno que atinge todos os gêneros e todas idade, apesar de ser uma ferramenta da geração mais jovem. As pessoas falam que sou bonito, que já fui eleito símbolo sexual várias vezes, mas eu comecei a me achar bonito mesmo depois dos 30. E foi por um conjunto de coisas. Primeiro, acho que a idade foi generosa comigo. Depois, porque senti que estava com maturidade para lidar com várias situações, conquistei coisas importantes com o meu trabalho, estava me sentindo mais seguro. Isso tudo me fez ter mais autoestima. Aprendi a lidar melhor com o que carrego, sabe? Lidar melhor com o que eu carrego, física e emocionalmente.

Ser chamado de galã e símbolo sexual incomoda? 

Uma repórter perguntou ao Jude Law se ele não se incomoda de ser chamado de bonito. Ele respondeu que, quando se faz 45 anos, é uma delícia receber esse elogio. (risos) Não sei se te respondi, mas achei genial essa resposta. Acho que é da natureza do ser humano querer estar bem, querer estar hábil para fazer as coisas. O Brad Pitt está muito bem para quem tem 55! George Clooney tem 57… Minha sogra diz que quer ser a melhor da faixa etária dela. E ela é sarada. Acho que é isso: vou me cuidar para estar bem dentro da minha idade.

Quais foram as principais mudanças que sentiu com a idade?

Algumas pessoas reclamam da disposição, mas não senti diferença nisso. Nunca fui de noitada, sempre dormi cedo. Acho que senti uma necessidade de me centrar mais. Fui ficando mais espiritualizando, sabendo onde usar a minha energia de uma forma melhor. Aprendi a analisar melhor as batalhas que vou lutar e a identificar quais as que nem devo entrar. Eu sempre fui muito competitivo. Agora, entendo que certas coisas não valem a pena. Digamos que também fiquei mais profissional com os meus hábitos. Antes, ouvia falar que algo era bom e repetia. Hoje, busco profissionais.

Você se considera vaidoso?

Acho que sou vaidoso com a minha saúde. Só como alimentos orgânicos, levo a minha garrafa de água alcalina para todos os cantos, pratico esportes. Sempre surfei e, por isso, usava bons protetores solares, mas isso não era vaidade, era necessidade (risos). Fui inteligente por ter feito essa escolha. Ontem, fui almoçar com um amigo e ele reclamou que estava com a pele cheia de melasmas, que são manchas. Na verdade, acho que esses cuidados fazem parte do meu trabalho. Eu vou ao dermatologista, claro, mas nunca fiz botox, por exemplo. Acho que pode atrapalhar a minha expressão. Fui a um médico recentemente para saber se ia ficar careca. Meu pai está com 59 anos e tem poucos fios, mas não vou perder meus cabelos, não! Quero deixar claro que não tenho preconceito algum. Se um dia precisar fazer algum procedimento, eu faço. Minha mãe era astróloga e viu no meu mapa que, além de ser ator, eu sempre teria a aparência jovem (risos).

Você demorou a se render às redes sociais.

Ah, é tão legal ter privacidade!  Eu gosto. O Instagram, para mim, é uma luta. Confesso que tenho dificuldades. É que sou de uma outra geração. Fiz sucesso na Malhação e era perseguido. E agora os paparazzi foram embora! Tem um ou dois só. Eu os conheço, falo com eles e tudo. Agora, todo mundo posta tudo. Eu meio que ignorei, fui um dos últimos a entrar. Cheguei a pedir ajuda a uma empresa, mas achei que o conteúdo que eles postavam não tinha a ver comigo. Resolvi tocar sozinho, mas publicava duas vezes por semana e vi que não era legal. Era melhor nem ter (risos). Hoje, tenho uma pessoa para me orientar.

É quase obrigatório ter uma conta hoje…

Acho que não. O Ryan Gosling, por exemplo, não tem, mas, os atores da minha geração, todos têm. A última a se render foi a Jennifer Aniston. Genial! Está batendo todos os recordes. Hoje, eu curto. Vejo o que vou postar. Estudo as batalhas que vou brigar. Divulgo meu trabalho, minhas campanhas, mas também falo sobre homofobia, racismo… Sou discreto, não sou do tipo que dá a opinião a toda hora, mas dou, sim. Acho que o ator tem que ter um pouco de mistério. Denzel Washington fala isso, Marlon Brando… Quando o público conhece muito a vida pessoal do ator, fica difícil acreditar nos personagens. Eu comecei a falar com a câmera há um mês e, caramba, os seguidores se multiplicam! Uma loucura! Daqui a dois dias… não, amanhã… talvez agora meu número de followers já tenha subido. Vamos ver? Estou curioso. (ele pega o celular). Acabou de mudar! Agora são nove milhões e 300 mil pessoas me acompanhando e não tem dez dias que comecei a gravar stories! O que quero dizer é que é um fenômeno falar com a câmera. Outro dia perguntei para a Mariana se meu story estava legal. Ela disse que eu tinha falado direitinho, mas disse que eu não me abria para a câmera. Que eu não perguntava como estava a pessoa… Não sei se consigo! Eu falo “Oi, gente!”, ainda tímido. Vi o Instagram do Channing Tatum e ele postou uma foto puxando a sunga. Um dia vou mandar um selfizão pós-banho, toalha baixa… pá! E a legenda vai ser:  e aí, Kim Kardashian? (risos)

Há pouco tempo, você postou uma foto de sunga e todo mundo comentou.

Ah, aquela foto não tinha nada. É diferente de estar…pá, né? (risos) Uma vez, o Channing postou uma imagem no chuveiro, nu, com as mãos tapando as partes íntimas. Vou fazer uma foto igual! Segura essa, Mariana! (risos)

Ela tem ciúmes?

Não, a Mariana é ótima. Me dá vários conselhos. É claro que pode rolar um ciúme, mas os sentimentos não podem ser impeditivos, né?

Como a Sofia lida com a fama dos pais?

Ela lida bem, sabia? Ela verbaliza o que está sentindo e isso facilita. Quando ela quer, quer, e, quando não quer, ela avisa. Teve uma vez em que fomos ao shopping e eu não tirava foto com fã com ela ao lado. Até que um dia, ela falou:  não, papai, tira a foto! Agora, tem dias que ela me pede para não fazer imagem alguma. Ela tem bastante opinião.

Você tem ciúmes dela?

Ela está bem feminina, bem vaidosa, e ela é muito corajosa. Vivemos tempos em que é preciso saber educar uma menina. Temos que educar uma princesa guerreira, sabe? Ela adorou o Aladdin. Quis saber o por quê. Ela respondeu que Jasmine tinha muita atitude. Não tinha assistido e fui correndo ver. Achei muito interessante. Ele não é mais o cara que resolve tudo. Resolve alguns problemas e a Princesa, outros. Gostei muito porque acredito na igualdade:  na dramaturgia, nos salários, em tudo. O que mais falta no mundo é igualdade e tolerância. Sei que é utopia todo mundo concordar com todo mundo, mas respeitar o outro evita muitos conflitos.

E teve algum medo antes da Sofia nascer? Ficou preocupado com a criação, por exemplo

Não. Esse tipo de pensamento surgiu quando vi que ela estava se tornando uma “pessoinha”. Ao montar a minha produtora, passei a olhar o mundo de uma outra maneira. Vi como as coisas estavam mais difíceis. Trabalho muito, mas sei que sou sortudo.

Sortudo em que sentido?

Passei no meu primeiro teste para a Globo, emendei três novelas e assinei logo um contrato fixo. Tive bons personagens. Não tirei muitas férias, é verdade. Isto é até um motivo de arrependimento:  não ter viajado mais. Viajar ajuda você a voltar um profissional melhor, com um olhar mais rico. Mas, naquela época, tinha fome de crescer como ator. Enfim… Agora, percebi que o mundo está ficando mais difícil e que nossos filhos têm que estar preparados para as dificuldades que vão enfrentar.

Você consegue fazer uma análise de antes e depois do nascimento da Sofia?

Acho que hoje sou menos egoísta. A Grazi e eu temos guarda compartilhada. Então, metade da semana, Sofia é minha. Eu não podia mais fazer o que queria. Meus pais moram longe. E não rolava de pedir aos avós para tomarem conta da neta. Minha primeira decisão foi parar de surfar. Perdia, entre o trajeto para a praia, conversa com os amigos e o esporte, quatro horas do meu dia! Era tempo demais longe de casa, da minha filha. E cortei a babá também. Ela era tão boa que eu não chegava na Sofia, sabe? Enfim, surfei menos, mas ganhei mais abraços e mais “eu te amo“. Minha prioridade é ela. Faço questão de levá-la à escola, ao clube… Hoje mesmo, desmarquei uma reunião da novela para assistir à apresentação do colégio. Minha filha é a melhor escolha que eu fiz!

Que tipo de pai você quer ser para a Sofia?

Quero ser, não, eu já sou! Quero prepará-la para um mundo competitivo, para ela ser tolerante, para ser guerreira, para lutar pelas próprias escolhas e poder encarar a vida de frente. Isto é o principal. Ela é muito educada e muito generosa. E já entende quando os outros não são com ela. Outro dia, ela ganhou um slime ruim. Ela contou que viu que a amiguinha abriu o pote, soube que a massinha estava ruim e, mesmo assim, quis dar para ela. Estava pensando em mudá-la de escola. Ia colocá-la numa escola que falasse inglês o dia todo, mas desisti por enquanto. Tenho consciência de que ela vive numa bolha. A mãe passou por muitas dificuldades e eu também. Hoje, somos bem-sucedidos. Ela não vai passar por certas situações que passamos, ela não vai poder “viver”. Tipo não vai pegar ônibus, não vai pegar táxi sozinha às duas da manhã. Não vou deixar. Por isso gostaria de preparar a minha filha para morar fora, no exterior. Se ela precisar ir ao médico, vai ter que ir sozinha, vai aprender a se virar sem os pais. No Brasil, acho que ela não vai poder vivenciar essas situações. Pelo menos por enquanto, infelizmente.

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