A intérprete dos cabelos de fogo

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Mariana Ximenes está há quase 20 anos no auge. E não apenas na televisão. Ela brilha no cinema um contra ponto inesperado para uma mulher de físico mignon que, na verdade, tem formas voluptuosas e uma carreira que poderia ser definida pelo mesmo adjetivo. São, desde sua estreia concomitantemente em dois trabalhos de 1998, a novela Fascinação, do SBT, e o longa Caminho dos Sonhos, de Lucas Amberg, nada menos que 12 telenovelas, quatro minisséries, 23 longas, quatro curtas e mais uma mão de peças de teatro. Mariana é, sem trocadilhos, um monstro na hora de “construir” seus personagens, uma palavra que ela repete sem perceber em diversos momentos. Engraçado também é vê-la se espantar ao ser confrontada com esses números, principalmente quando se aponta sua intensa imersão na sétima arte. “Penso que isso ocorreu porque vou atrás dos meus projetos e não tenho o menor pudor disso. E eu estou muito disponível para me entregar como intérprete. De corpo, alma e mente”, conclui.

E dá-lhe disposição para tamanha eloquência: a atriz paulistana, 35 anos, acaba de sair de dois papéis marcantes na televisão, a série Supermax e a novela Haja Coração, obra na qual somou mais uma mocinha popular em sua carreira. Um caminho vertiginosamente diferente do que pratica no cinema, em que se atreve a tipos até bem experimentais, em 2016 ela lançou cinco filmes e já tem, para o próximo ano, programadas as vindas de Os Penetras 2, de Andrucha Waddington, e O Grando Circo Místico, de Cacá Diegues, que lhe obrigou a se enveredar nas aulas de trapézio. “Se você me disser que tem o melhor papel do mundo para amanhã, vou dizer não. Mas, se for daqui um ano, é claro que eu vou fazer”, explica ela, sobre seu processo, que nos faz logo (querer) tentar desmontar a mocinha tipo camaleoa que cai tão bem em cabelos de fogo.

Tarefa árdua, diga-se. E árdua porque parece que Mariana simplesmente foi colocando cartas em seu castelo de modo não premeditado (reza a lenda que é assim desde criança). “Tudo começou com Monteiro Lobato. Foi lendo-o que decidi que queria contar histórias e, mais tarde, ser atriz”, relembra a garota que não precisou se costurar como Emília, mas jamais deixou de emendar seus paninhos.

A estreia na Globo começou quando fez um teste com a hoje amicíssima diretora Amora Mautner. A galope, mudou-se para o Rio de Janeiro para entrar em Uga Uga, de 2000, que a elevou ao status de estrela enquanto se equilibrava dos estúdios para um palco em Copacabana, onde integrava o elenco de A Rosa Tatuada, de Tennesse Williams. Aliás, equilibrava-se não, dirigia. “Com 18 anos eu adquiri um corsinha 1.0 e saía da Barra da Tijuca para a Zona Sul pela linha Amarela”, conta ela sobre seu início sem a tecnologia do GPS em trechos que, como bem sabem os cariocas, não eram (e ainda não são) fáceis de transpor. Em tempo, Mariana passou no teste da auto-escola porque teve uma ajudinha essencial: aprendeu a guiar com um motorista da emissora. O período de condução de um motor mequetrefe foi amplamente desafiadora para ela. Em todos os sentidos. Se Uga Uga, comédia adorada pela massa e odiada pelos que acham apelativa a retórica do autor Carlos Lombardi havia lhe catapultado definitivamente à fama, quase lhe causou transtornos. É que ela queria porque queria filmar, na sequência, em 2002, o drama O Invasor, de Beto Brant, que ela conheceu ainda adolescente ao ser dirigida por ele num comercial de esponja de aço – sim, antes do estrelato Mariana já havia feito centenas de campanhas publicitárias. Quando Brant a convidou, ela pediu para que ele a visse na novela. “Então ele me ligou e disse: ‘olha, não vai rolar’. E eu disse: ‘Calma, me espera que eu vou fazer esse filme’”. Mariana brigou, colocou dreads, ficou morena e conquistou o papel. Hoje o considera um divisor de águas em sua trajetória. Estava certa. Por ele recebeu elogios e logo encarou, cheia de pompa, sua primeira protagonista em rede nacional, em Chocolate com Pimenta, de 2003. Um título, há de se concordar, bem conveniente para uma atriz que não tem medo de algo picante mesmo quando sua tez transmite com facilidade a imagem de um querubim.

Desde sua primeira aparição, o inconteste é que Mariana nunca parou. E raramente se viu em emboscadas. “Eu nunca tive estratégias. O que eu tento é seguir minha intuição e me dar um tempo mínimo de preparação”, diz, para logo ser indagada do porquê de sua distância do teatro. Sua última vez nos palcos, após um hiato de dez anos, foi com Os Altruístas, dirigida pelo amigo Guilherme Weber, em 2011. “Para encenar Os Altruístas eu neguei uma novela. O teatro exige e eu gosto de produzir, gosto de autoria”, justifica ela, que, sim, adora a encenação ao vivo. Quer a prova? Diferentemente de algumas de suas colegas, que poderiam sentir urticárias com a aventura a seguir, Mariana já fez curso com José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, e com ele se enveredou, cerca de seis anos atrás, em Canudos, na Bahia, para participar de Os Sertões, apresentada naquela ocasião em extensão digna do livro de Euclides da Cunha: quatro montagens de seis horas. Na sequência, ela e o diretor aventaram a possibilidade de seguir adiante com uma obra de Nelson Rodrigues, Senhora dos Afogados, mas ela acabou se perdendo no meio de tantos e infindáveis projetos. “Faltou foco, mas já estou procurando um texto”, fala, mansa e com a sincera brutalidade de uma atriz que se permite questionar qual seu papel na arte. “É uma pergunta que eu me faço sempre que acabo um trabalho. O que eu quero mostrar?”.

Mariana está exatamente na tal fase em que precisa de uma pausa. Porque gosta tcham, tcham, tcham da observação. “Estou em processo de construção o tempo inteiro. Ou seria mutação?”, devolve. Se ela não sabe qual seu próximo passo, está convicta de que o que a gente precisa é de educação. Que não adianta reclamar que “O ingresso é caro, pois fazer teatro é caro”, ou se lamentar sobre a curta vida que alguns filmes nacionais têm de exibição, incluindo diversos dela. “Precisamos de educação porque é assim que o público vai se organizar, abrir a cabeça ou deixar de eleger um político corrupto. Educação é a base de tudo”, alonga-se. E, caso esta frase tenha lhe parecido feroz, saiba que a oratória de Mariana é sempre mansa, até em pontos mais polêmicos, por assim dizer.

Agora, convenhamos, será que há passagens controversas em sua história? Será que esta garota de sorriso doce já se lamentou pela baixa audiência de uma novela, por exemplo? Ela explica que, como qualquer artista, aprecia o aplauso, mas gosta mesmo é de ter prazer. Porque “Sem prazer não dá. E já aconteceu um caso no cinema e outro na televisão em que eu me perguntava: ‘por que eu topei, meu Deus?’”, conta, entre gargalhadas. Segundo ela, a questão não pode se resumir a sucesso ou dinheiro. Jamais? “Você tem que ter prazer para estar presente em qual-quer coisa que faça.
 Para se entregar. É só assim que eu sei fazer. Ao menos eu sou essa pessoa”.

Sim, Mariana é uma “Pessoa que ama artes e detesta sentir fome”. Só (parece) se penalizar por (ainda) não ter aprendido a falar francês. É inegável, no entanto, que ostenta um refinamento artístico que a torna cada dia mais cult. E ela relembra que tudo começou meio por acaso, quando namorava um colecionador. Gostou, identificou-se e se aprimorou. É até difícil extrair dela apenas um de seus artistas plásticos favoritos. São muitos. Mas há “causos” irresistíveis. Vide que ela gosta tanto da obra de Miguel Rio Branco, considera-a “crua e densa”, que não pensou duas vezes em pedir ao artista para fazer umas fotos suas ao conhecê-lo. Acabou em seu ateliê, em Itaipava, região serrana do Rio Janeiro, e, quando deu por si, já lambuzava seu corpo nu com urucum, o que resultou num tríptico sem sua cabeça que foi bem noticiado por aí. Na visão dela, para se despir é preciso um significado ou, nesse caso, o conforto de uma arte contestadora. Simples assim.

Seguindo o caminho das artes, certa feita, voltando da China, onde divulgava o belo A Máquina, de João Falcão, lançado em 2006, acabou se encontrando no ócio, numa escala de seis horas em Paris. E o que ela fez entre o desembarque e o embarque? Apressou-se para uma exposição do alemão Anselm Kiefer. Não deu outra: chorou. Foi assim também quando viu a oração da cerejeira (símbolo do Japão), “Infelizmente em Nova York”, ou quando se deparou com os jardins e a arte intensa do Inhotim, em Brumadinho, no Estado de Minas Gerais.

Mariana às vezes é derretida e, quando se emociona, finalmente a voz muda. Há algo de embargado, de romântico, você reza para não se enganar com tão competente atriz e logo descobre seu coração, tão corajoso e tão afoito, tão afeito às coisas simples. E a pergunta é inevitável: o que a faz chorar? “As manchetes de jornal”, ela rebate. “Não”, eu digo para Mariana: “O que lhe faz chorar num âmbito mais profundo?” Ela pensa um pouco, não tem pressa, vai me contar uma história e não ouse interrompê-la porque rapidamente se percebe que, quando ela começa, vai até o fim.

Deste modo ela discorre sobre uma amiga médica, Joana, que mora em Seattle, nos Estados Unidos. A amiga tem um lho chamado Caio e a escolheu para ser sua madrinha. “Um dia recebi um e-mail, na verdade uma carta endereçada ao filho, no qual Joana explicava as razões de ter me escolhido como sua madrinha. Desaguei”, conta. Pergunto se dá para revelar o conteúdo das tais linhas, ela fala que ali havia sua alegria de viver, sua pulsação. Tem como negar? Não, melhor ainda se você estiver com ela em casa, ouvindo música, jogada, tomando uma cervejinha, o filme Um Homem Só, um de seus xodós, produzido por ela, e lançado naquele ano, nasceu desse modo, com uma bebida na mão e uma grande confidente ao lado, a diretora Cláudia Jouvin.

“Tá bem, voltando a sua pergunta inicial: as coisas prosaicas me emocionam, me fazem chorar”, resume. Prosaico, a final, é o que? É o amor? “Amor é o que complementa, é compartilhar a vida. Eu adoro namorar, adoro cuidar, adoro ser cuidada. Principalmente por alguém que realmente gosta de mim”, finaliza. Não, não finaliza: “Eu não sei se respondi direito esta pergunta, porque eu gosto de poesia, sabe?” Não há como discordar dela que, reservadíssima, namora há dois anos o empresário italiano Felippo Adorno, e tem feito planos de finalmente ter um filho. Solo ou casada? “Eu teria um filho independente, sim. Mas não é minha crença. A minha ideia é ter um bebê fruto de um pacto de amor. Formar uma família por um pacto de amor”, conta e repete e, sem querer, responde o significado do amor em sua vida.

Mariana sabe de onde veio. “Saí de casa aos 17 anos e sei que sempre dá pra amadurecer mais. Esses dias tirei uma foto com a Fernanda Montenegro, o André Midani e a Heloísa Buarque de Hollanda e pensei em como sou sortuda de poder conversar com eles. Quero envelhecer com essa sabedoria”, diz, mirando um futuro cada vez mais sólido. Mariana demora, mas, quando se abre, parece que fala de uma vez, sem pudores. Seria ela travada? “Não, sou muito sensível. E não é defesa não. É que tudo passa pelo afeto”, resume. Imagina-se que, para mulheres guerreiras e ao mesmo tempo poetisas como ela, intempéries sejam corriqueiras. Mas Mariana não parece, exatamente, ser o tipo que guarda mágoas. Porém, nem sempre foi assim que lidou com as provocações. Pois, se os críticos são generosos com ela, colegas nem sempre o foram. “Já chorei muito no banheiro da Globo, seja por uma fofoca, seja por uma situação. O que mudou é que, agora, quando eu fico chateada, dá uma coisa em mim que eu vou lá e pergunto o que aconteceu, se é verdade”, relata. Afirma que se lança. Nesse instante, a gente até esquece que ela é atriz. Parece mais mundana (que delícia) que o esperado. “Eu me revelo quando confio e sinto que está tudo bem. Quando todos estão jogando. Mas não é um jogo jogado, é uma partida única, pelo bem. Isso rola no trabalho. É assim na vida”, encerra, sem cartas na mesa. Mariana está nua, como gosta da vida.

MADE agradece ao Cidade Matarazzo, cenário deste editorial | Produção de joias Paty Grunheidt | Assistentes de fotografia Isabela Corte e Renato Gonçalves | Assistente de beleza Marcia Oliveira | Tratamento de imagem Walter Moreno

 

 

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