Visão edificante

A fala calma e a voz baixa de Otavio Zarvos de monstram a humildade de quem nunca imaginou que sua empresa atingiria sucesso. Em 2005 ele criou a Idea!Zarvos apenas para construir um prédio onde gostasse de morar – não encontrava no mercado paulistano nada com arquitetura que o agradasse. Convidou o arquiteto Gui Mattos, na época em início de carreira, e, juntos, projetaram o 4×4, no Sumaré. Treze anos depois, são 29 empreendimentos entregues, mais três em construção e três lançados. Além dos números, confirmam o êxito os prêmios de arquitetura conquistados, a mudança urbanística positiva na Vila Madalena, bairro em que mais atua, e a ascensão das carreiras dos arquitetos parceiros. De mudança para o POP XYZ, projeto do Triptyque, na Vila Madalena, Otavio relembra sua trajetória, detalha seu modelo de negócio e revela seus próximos projetos em bairros além-Zona Oeste.

É nítido que a Idea!Zarvos se destaca no mercado imobiliário paulistano. Como avalia esse mercado e por que quis atuar de forma diferente?

A Idea!Zarvos nasceu da vontade de trabalhar no mercado imobiliário com dignidade. O mercado imobiliário é muito antiquado, duro. Desde a maneira como o cliente é tratado até como o prédio é projetado e construído. Queremos ganhar dinheiro, claro, a Idea!Zarvos é privada, o lucro é nosso dever, inclusive para reinvestir e perpetuar a empresa. Mas queremos fazer isso com dignidade para nós, para os arquitetos e, principalmente, para a cidade. Esse conceito é resultado de amadurecimento. Aos poucos, por meio de conversas com os arquitetos e de reflexões internas, percebi que o urbanismo era mais importante que a estética.

Na sua visão, quais são os diferenciais da Idea!Zarvos?

São três aspectos. O primeiro, mais óbvio, é estética. Temos ótimos arquitetos no Brasil e eles podem suprir isso para nós. O segundo é pensar para que o prédio serve. Isso é responsabilidade do incorporador, não do arquiteto. Normalmente, a atitude do incorporador é fazer o que já existe naquela região. Mas eu quero fazer no bairro aquilo que ele não tem, não o que já há em abundância. O terceiro aspecto é o cuidado com o entorno imediato do prédio.

Apostar em arquitetura autoral era bem incomum no mercado imobiliário há 13 anos. Como isso começou e como escolhia os arquitetos?

Eu já tinha experiências anteriores fazendo prédios. Mas decidi que queria arquitetura melhor. Não sou arquiteto, não estava familiarizado com esse universo. Quem me ajudou foi o José Eduardo Cazarin, fundador da imobiliária Axpe. Ele me apresentou Andrade Morettin, Triptyque, Grupo SP, Gui Mattos. Eram jovens arquitetos que estavam sobressaindo na época. Não no mercado imobiliário, mas na crítica de arquitetura. Posteriormente, não só a Idea!Zarvos alcançou sucesso, mas eles também. Uma geração bacana, que floresceu. Porque, de fato, havia conteúdo e muito talento em todas essas pessoas.

Por que apostar em projetos diferentes do que o que costuma dar certo no bairro? Não é muito mais arriscado?

A Vila Olímpia já tem escritórios, então as incorporadoras fazem mais porque dá certo. No Morumbi, apartamentos de quatro dormitórios. Matou os bairros. A cidade não tem planejamento. Teríamos que contar que o incorporador tivesse visão urbanística. Para nós talvez tenha sido mais fácil porque só atuamos na Vila Madalena. Percebi que, em horário comercial, a Vila ficava vazia. Era um bairro residencial, com os bares à noite. Decidimos fazer prédios de escritório para atrair empresas criativas. Transformou a Vila Madalena positivamente, deu equilíbrio, trouxe prosperidade. Assim começamos a entender o urbanismo, a cidade, como os bairros se desenvolvem. Passou a ser uma ferramenta para acertarmos nossas apostas imobiliárias. Não é um discurso para falar que a empresa é legal. O urbanismo nos ajuda a ganhar dinheiro.

Sobre a relação dos prédios com o entorno, sempre foi muito forte o discurso que São Paulo precisa de muros para garantir segurança. Como superou este preconceito?

O público tem que começar a invadir mais o privado e o privado tem que ser mais gentil com o público. Fazemos prédios para as pessoas que vão trabalhar e morar ali. Mas, na verdade, muito mais gente vai passar na frente. Então a calçada tem que ser bem feita, recuada, se possível ter bancos públicos, sombra, fachada ativa. Pequenos gestos. Normalmente, quando se faz um prédio se olha para a torre, se está bonita a fachada. Mas e esse pedacinho aqui embaixo? É o mais importante.

Os próximos lançamentos da Idea!Zarvos serão fora da Zona Oeste, no Itaim e nos Jardins. A Vila Madalena já está saturada?

Não, a cidade tem que ser reconstruída. Porque foi mal planejada e porque os jovens usam a cidade de uma maneira totalmente diferente das gerações anteriores. Com essas duas coisas se encontrando, todos os bairros de hoje vão ter que ser refeitos. E vão ser refeitos pela iniciativa privada, pelo incorporador apoiado pela sociedade que compra aquilo que ele faz.

O novo empreendimento do Itaim tem projeto do Jacobsen. É o primeiro prédio residencial desse arquiteto, renomado pelas casas. Como foi a experiência?

O Jacobsen é sensível, cuidadoso. Ficou lindo o projeto. Ele adorou a possibilidade de fazer um prédio. Tem muito mais visibilidade. Para o portfólio de um arquiteto é importante ter prédios e obras públicas, não só casas. Arquiteto é um ser que ama desafios. Essa é a parte do meu trabalho que é sensacional. Você sonha com uma ideia, pensa numa pessoa morando ali, feliz. Daí escolho um arquiteto, projeto, construo e entrego. E aquilo vai ficar um tempão lá, dezenas, centenas de anos.

Como avalia a paisagem urbana dos Jardins e por que escolheu o Andrade Morettin para este novo projeto?

Jardins é um bairro querido dos paulistanos, mas achamos que está envelhecido em termos de arquitetura, precisa ser renovado. O Andrade Morettin é formado por arquitetos jovens, que souberam dar jovialidade ao projeto. Já é o sexto trabalho deles para a Idea!Zarvos. Estão familiarizados com os nossos três conceitos. O bairro tem muitos apartamentos de quatro dormitórios. Quisemos fazer um apartamento grande, espaçoso, mas de poucos quartos. É para uma pessoa de renda alta, mas que não mora com filhos. Quer espaço e pode pagar por ele, mas um espaço adequado para a sua necessidade.

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